O-Auto-Falante

W3log de Tiago Charters de Azevedo (Comentários para: tca@diale.org)

diale.org | RSS | Última actualização: 2008-09-14 [16:30]

Perceber

# | 2008-01-30

Perceber a natureza e o que nos rodeia através de algoritmos. É uma maneira de organizar a informação.

Aprende-se a calcular calculando

# | 2008-01-28

O que é que se quer dizer com: "eu sei calcular primitivas". Quero dizer que sei calcular a primitiva de 1/x, que é log(x). Mas também quer dizer que sei calcular outras primitivas, como saber isso quando digo que sei calcular primitivas?

Quando é que se passa do "eu sei calcular a primitiva de 1/x para "eu sei calcular primitivas"? Muitas vezes usa-se a segunda querendo, no entanto, significar a primeira. Outras vezes ao contrário.

Já agora, o que significa saber calcular uma primitiva. Como se passa do cálculo para o saber calcular? São uma e a mesma coisa?

Vamos ver. Dizer "eu sei resolver a equação x^2-1=0, como sei isto. Bom, é fácil, passo o 2 para o outro lado, troco o sinal, faço a raiz quadrada e já está!

Aprendeste agora, mesmo, a calcular isso ou calculaste usando a experiência de cálculo que já tinhas?

Como sabes que aprendeste a fazer um certo cálculo? Quando o consegues repetir? O mesmo? Quer dizer que aprendes um cálculo decorando, memorizando, de modo a poder ser repetido. Mas o mesmo? Ou outro ligeiramente diferente?

Resolver uma equação que difere da anterior (x^2-2=0) numa pequena parte é mostrar que se sabe calcular? Mas não é a equação x^2-3=0 a mesma equação que me mostraste anteriormente?

Digo-te que resolver uma equação, saber calcular, é, repito, resolver uma equação, qualquer uma, que me ponham à frente. Mas não há equações que não sabes resolver? Fazer um calculo não é só resolver equações. Então o que é fazer um cálculo, saber calcular? Volta-se sempre à história de W. sobre "aqui está uma mão, aqui está a outra". Mostra-se que se sabe calcular, calculando.

(x+1)^2=x^2+2x+1

Isso mostra que sabes calcular! Isto é um cálculo, e mostra também, que devo saber calcular alguma coisa, porque a igualdade é verdadeira. Mostra de alguma maneira que sei calcular, pelo menos coisas onde apareça o binómio de Newton. Explica então como o conseguiste, ensina-me a simplificar a expressão (x+1)^2.

(x^2+1)^2=(x+1)(x+1)=(x^2+x+1+x)=x^2+2x+1

E já está. Percebi agora, ensinar a calcular é mostrar como se calcula. E como saber se o aprendi. Com uma expressão ligeiramente diferente? do tipo (x+3)^2? Mas isso não é a mesma expressão? Quando, e como, é que se pode dizer que, agora, eu sei calcular?

Fazer y=x+1 e o problema fica

(y+1)^2=y^2+2y+1=(x+1)^2+2(x+1)+1=x^2+3x+4

Percebo agora, saber calcular, é usar a regra de substituição, através do cálculo anterior. Mas como saber que isso corresponde a "saber" calcular. O saber calcular é o mesmo que usar as regras de substituição. Mas o que são regras de substituição?

(cont.)

Misturas

# | 2008-01-26

(defun join-string(xs &optional sep)
  (cond ((null xs) "")
        ((null (cdr xs)) (car xs))
        (t (concat (car xs) (or sep " ") (join-string (cdr xs) sep)))))

(defun mistura (frase)
  "Faz o cut-up de uma dada frase, isto é, retorna uma
   frase com os mesmo elementos mas com ordem aleatória"
  (setq frasecu ())
  (setq listafrase (split-string frase))
  (random t)
  (while listafrase
    (setq palavra
          (nth (random (length listafrase)) listafrase))
    (setq frasecu (cons palavra  frasecu))
    (setq listafrase (delq palavra listafrase)))
  (insert (join-string frasecu))
)

Parabéns

# | 2008-01-23

Donald Knuth fez 70 anos no dia 10/Jan. Autor da monumental "The Art of Computer Programming (TAOCP). A sua

"favorite way to describe computer science is to say that it is the study of algorithms. An algorithm is a precisely defined sequence of rules telling how to produce specified output information from given input information in a finite number of steps. A particular representation of an algorithm is called a program... Perhaps the most significant discovery generated by the advent of computers will turn out to be that algorithms, as objects of study, are extraordinary rich in interesting properties and, furthermore, that an algorithmic point of view is a useful way to organize knowledge in general."

D. Knuth

Ref: Recursivity, Jeffrey Shallit

This calculus is purely mechanical

# | 2008-01-22

"This calculus is purely mechanical; a machine could carry it out" What sort of machine? One constructed of the usual materials — or a super-machine? Are you not confusing the hardness of a rule with the hardness of the material?"

L. Wittgenstein

Par ordenado

# | 2008-01-20

A ideia de par ordenado é simples, tão simples.

Um par ordenado de dois objectos a e b é o par constituído por esses objectos pela ordem indicada, é designado por (a,b). Não pode ser designado por {a,b} (conjunto formado por a e b), pois {a,b}={b,a} e portanto a notação {a,b} não codifica a ideia de que a ordem pela qual se apresentam os objectos é importante. A maneira mais simples até hoje conhecida de codificar esta ideia é devida ao matemático polaco Kuratowski (1921).

O par ordenado de dois objectos a e b, designado por (a,b), é o conjunto {{a},{a,b}}.

Voltei, após dez anos de intervalo,

# | 2008-01-20

às minhas confusões (confissões) habituais, nada de novo, tudo na mesma: Wittgenstein, Schoenberg e Burroughs. Insano estacionamento.

"What can be shown cannot be said." (Wittgenstein)

"All writing is in fact cut-ups. A collage of words read heard overheard. What else? Use of scissors renders the process explicit and subject to extension and variation." (Burroughs)

Fundamental

# | 2008-01-18

Em 1960 John McCarthy publicou um artigo espantoso. Construiu uma linguagem de programação que está para a ciência de computação como o elementos de Euclides estão para a matemática. Mostra como construir, dado uma mão cheia de operadores simples e funções, uma linguagem de programação. Denominou-a de LISP — LISt Processing.

Para além de ser um marco fundamental na história de computação, aquilo que McCarthy descobriu, é o estado assimptótico para o qual converge, convergirá, toda a programação.

Sobre estilo

# | 2008-01-17

A alterar todo o estilo de diale.org, ainda não encontrei nenhuma forma de fazer páginas, e de as manter, que me satisfaça. Fiz uma pequena lista de páginas cuja forma me agrada, algumas são um bocado antiquadas, retro...

A ler: Cosmic Variance

# | 2008-01-16

Cosmic Variance: a entrada sobre o universo de Boltzman está muito bem escrita. A referência ao artigo original é esta: Andreas Albrecht, Lorenzo Sorbo, Can the universe afford inflation?: [hep-th/0405270]

Pachecal

# | 2008-01-14

Gosto mais de escritores mortos, sossegados, que não alteram nada do que já disseram: pelo menos do que já está impresso, pode sempre aparecer mais qualquer coisa póstuma, ou algo mudar em cada nova leitura.

Isto a propósito de Luiz Pacheco. Comprei o "Diário Remendado 1971-1975" editado pela Dom Quixote. Quanto do que lá está escrito pode ser encontrado no modos operandi da pt-blogoesfera?

Cito parte da entrada de 23/2/73 pg. 85:

"A verdade é que um dos sem-gosto para escrever aqui é a presença dele. Ele soube, pela Teresa, da existência desta espécie de Diário. Isso creio que o assusta (já me tem avisado: "mas isso não vás pôr no teu Diário!"), outras vezes parece-me que me conta, justamente, histórias (e ele tem um reportório vasto que se farta, mas também se repete — e eu deixo: mas ele não falha, diz sempre o mesmo e há episódios que encaixam muito bem uns nos outros) "diaráveis". Ora isso dá-me raiva e resolvi-me a mantê-lo no reino das sombras. Como não importante?"

Física para o povo

# | 2008-01-12

Nos 100 livros de cultura científica surge a referência ao livro de Rómulo de Carvalho A" Física no Dia-a-Dia" mas não pelo seu título original "Física para o povo" de 1968 (ed. Atlântida). Uma limpeza politicamente correcta, não? Se não veja-se:

Mas é mesmo para o povo!

Voto "raiz quadrada"

# | 2008-01-11

Durante o meu passeio habitual pelo arXiv.org dei na secção de matemática com o seguinte trabalho: Square root voting in the Council of the European Union: Rounding effects and the Jagiellonian Compromise. Recordo-me de se ter falado disto a propósito do método de voto proposto pelo governo polaco. Uma procura mais sistemática revela ainda o trabalho: Voting in the European Union: The square root system of Penrose and a critical point.

Claro que estes trabalhos requerem uma leitura mais aprofundada. Uma pesquisa no Google dá mais alguma coisa, apanha-se até o artigo do expresso onde se lê:

... proposta da "raiz quadrada", também conhecida por regra de Penrose e que assenta na ideia de que o peso de cada país deve ser proporcional à raiz quadrada da respectiva população...
Para se perceber em que consiste o sistema de voto pela raiz quadrada é necessário ver-se umas coisas antes. Note-se que o artigo de Penrose intitula-se "The elementary statistics of majority voting", a referência completa pode ser vista no primeiro trabalho que cito no início. Elementar, não?

O primeiro passo é analisar a qualidade/poder de cada voto dentro de cada país. Penrose define este poder como a probabilidade de um voto individual mudar o resultado da votação assumindo que todos os outros votos são aleatórios (ora aqui está um bom ponto para se pegar para argumentar contra o voto "raiz quadrada"). O resultado que é usado nas notícias que saíram a este respeito é aquele que se obtém depois de se admitir que a votação é ou "sim" ou "não" que o número de votantes, N, é muito maior do que 1, e depois usar a aproximação de Stirling; que nos dá a probabilidade de um voto mudar o resultado final da votação final, P=1/sqrt(N). Esta é a "lei raiz quadrada de Penrose".

Compare-se com o que foi dito na altura!

A flor de todos os enganos (nicotina)

# | 2008-01-09

A terceira sonata para piano de Pierre Boulez

# | 2008-01-08

A terceira sonata para piano de Pierre Boulez (1957-58) surge da literatura, em particular do livro-projecto de Mallarmé, e representa uma das primeiras formulações de uma obra aberta. O plano da terceira sonata consiste em cinco movimentos que Boulez, usando uma terminologia acústica, designou por formandos. Estes cinco formandos são:

A - Antophonie B - Trope C - Constellation / Constellation-miroir D - Strophe E - Séquence

Apenas os formandos B e C estão publicados e gravados. A terceira sonata, embora inacabada, tem as suas regras fundamentais de construção: é possível trocar A com B e por outro lado trocar D e E, C fica sempre ao meio. O primeiro par (A,B) pode ser trocado com o segundo (D,E), o que justifica C como sendo constelação espelho.

Boulez evoca três imagens ou ideias que dirigem a obra:

  1. A ideia de obra aberta, que cabe ao executante resumir/acabar, a de work in progress e a ideia de infinitude e permutatividade;
  2. A ideia de labirinto;
  3. E, por último, a ideia de um universo em expansão.

As equações de Einstein em Relatividade Geral (RG) são escritas fazendo uso de um tensor denominado tensor de Ricci que por seu lado se obtém por contração do tensor de Riemann com a métrica. Se não veja-se:

latex2png equation

e

latex2png equation.

O que é relevante é que o tensor de Riemann, que é designado por latex2png equation onde a, b, c, d = 1, 2, 3, 4, tem exactamente as simetrias que Boulez impôs à sua terceira sonata para piano e cuja ideia, a de um universo em expansão, tem nas equações de Einstein uma das soluções mais relevantes para a compreensão da evolução do universo.

Note-se

# | 2008-01-01

Bom ano.

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